19/06/2009

Dentro

Ainda havia de nascer, mas lembro-me como se fosse hoje daquele quarto, grande como todos os quartos grandes, que não era meu e me pertencia. Ainda havia de nascer, mas aquele quarto já era meu. Contigo. Já tu tinhas crescido e eu ainda haveria de nascer, era nesse quarto que juntávamos as nossas malas riscadas e cobertas do cansaço da viagem a um canto e nos deixávamos levar pelo frio que aquecia a noite. E falávamos palavras que percorriam uma atrás de outra atrás de outra atrás de outra as paredes e as cortinas e cada uma das rachadelas no tecto branco de cal quase vitoriana do quarto que haveria de ser meu. E ríamos. E eu ficava no meu canto, a admirar a tua perfeição, e a desejar ser como tu, naquele quarto grande, quando fosse grande. Ainda haveria de nascer mas, nas rugas vincadas nas minhas mãos quando apertava as tuas, já era mais velho do que tu. E admirava-te como se admira a perfeição. E a perfeição eras tu naquele instante e em todos os instantes.

Passou-se um ano. E outro ano. Passaram-se todos os anos que haveriam de passar até que eu nascesse. E eu nasci. E morri-te. Era noite. E estava frio. E eu estava mais frio do que a noite porque te tinha morrido. Tão frio que a lágrima, ao teimar soltar-se, deslizou uns breves segundos de distância e congelou antes de se despenhar na minha face de rasgo corado de frio.

E eu, lá no fundo da minha morte, pedi-te que não levasses flores à minha sepultura. Mas não cumpriste a tua promessa e levaste flores à minha sepultura. E insististe e levaste flores à minha sepultura. E mais flores. E mais flores. E a cada flor, eu visitava o meu quarto, o quarto que era nosso ainda eu não era nascido. E ouvia as nossas palavras a percorrer as paredes e as rachas do tecto branco de cal quase vitoriana. E ouvia-te o segredo. Sempre te ouvia o segredo. E ríamos. E eu morria-te. E pedia-te outra e outra vez que não levasses flores à minha sepultura. Até que me morreste. E eu tentei esquecer o nosso quarto de cheiro a lã e paredes e rachadelas.

Hoje estava frio. E senti saudades do calor da noite fria do nosso quarto. Visitei-o. Não te esperava, mas estavas lá. E eu estava lá. Não falámos. As palavras não percorreram as paredes e as rachadelas de imaculado já nada vitoriano, e que me pertenciam antes de eu sequer nascer, e que eram as nossas paredes e as nossas rachadelas. Não nos rimos. Olhámo-nos. Vimos uma nesga de gota solene solidificar-se nos nossos olhos. Éramos fantasmas corados de vergonha naquele quarto que ainda cheirava a lã e a cal e a rachadelas de tecto quase vitoriano. Não passámos de meras memórias que duvidávamos terem existido num passado que já não era o nosso. Morremo-nos. Mas faríamos parte um do outro para sempre. Naquele quarto de cheiro a lã.

- Publicado no catálogo da exposição Zero Atlântico, de Júlio Dolbeth (em Luanda, Angola, Maio de 2009)

18/05/2009

Zero Atlântico

Mais uma contribuição para uma exposição de ilustração de um dos mais prometedores artistas contemporâneos portugueses. O cartaz da exposição está aqui e os textos estarão brevemente no blog das pedras normais.

14/03/2009

Se não estava, haveria de estar...

Lembro-me como se fosse ontem do vulto que era como o teu em frente àquela janela do outro lado da rua. Poderia não me lembrar, porque já passou algum tempo, muito tempo, tempo de mais até para todos os iogurtes de todas as prateleiras de todos os supermercados de todo o mundo que entretanto se estragaram... todos. Mas lembro-te que era o teu vulto e não qualquer outro porque era teu. Era um vulto pálido, sereno, olhar distante no horizonte de navios, cruzeiros e cargueiros que, entretanto, haveriam de partir. Estava triste. E eu, ignorando a tristeza do teu vulto, sabia, lá no fundo sabia, apesar de não te conhecer, que haveria de ter culpas no cartório da tristeza do vulto que era teu. Estava escrito em todas as linhas! E, se não estava, haveria de estar.
Nesse final de tarde vi rolar-te pela face válida de vulto triste uma quente lágrima, salgada e solitária. Soube que estavas triste. Soube que a culpa era minha. Ou, se não era, haveria de ser - porque, nessa altura, os nossos caminhas ainda haveriam de se cruzar...

13/03/2009

Barcos e ilusões

Naquela altura eu era forte, e era uma espécie de porto seguro. E tu pegavas no teu barco de papel arrancado à força do caderno de capa ao xadrez e partias à descoberta... E durante dias mergulhavas nas novas aventuras e sentias-te entusiasmado e animado e eras feliz durante uns dias. Quando a descoberta te desiludia, ou quando já não tinha nada de novo que pudesses descobrir, voltavas a atracar no teu porto seguro... Até nova aventura e novos entusiasmos e novas descobertas... Até que um dia atracaste num porto que achavas ser o teu; mas afinal não era, e o teu porto tinha partido para outros barcos...