24/11/2008

Texto para t-shirt

Era um dia quente e longo de final de Primavera. Mas apesar de ser um daqueles dias quentes e longos que só o final de Primavera sabe desenhar, tinha acabado de sentir um fino fio de frio percorrer-lhe a espinha dorsal, primeiro, e, depois, o corpo todo, da planta dos pés até ao lugar mais recôndito da sua eriçada nuca. Percebeu, nesse momento que era feliz. Fazia precisamente sete anos e sete meses - Deus, como o tempo passa! - que estava preso. Olhava para trás e não conseguia perceber ainda como tinha acontecido. Sabia que tinha sido numa extraordinariamente bonita noite de Outono, daquelas de cheiro a lápis acabado de afiar a rasgar o papel ainda fresco ao abrir da resma. Sabia que tinha sido na rua fresca, à porta de casa, debaixo dos ramos de folhas quase secas das árvores ainda novas. Sabia que, como todas as noites de todos os dias de todas as estações, havia pessoas, vizinhos, a passear os aflitos e nervosos cães de bexigas ainda a escorrer das últimas gotas. Sabia que tinha que haver um motivo, uma razão, mas não sabia qual. Talvez tivessem sido os seus sonhos de felicidade partilhada com todas as pessoas belas de quem gostava. Ou talvez fosse a sua personalidade forte, marcada, a desejar igualdade na utopia de todos sermos iguais num mundo onde ele próprio, ou sobretudo ele próprio, era diferente. Ou talvez fosse, apenas e só, a sua fé, a sua vontade de crer e acreditar amar a ser amado num mundo que não lhe pertence. E talvez fosse tudo isso ou apenas a vontade que tinha de abraçar, naquela noite à sombra das folhas daquelas árvores, um vulto proibido, que não lhe pertencia. Na realidade, não percebia como tinha acontecido. Naquela noite, depois de se despedir do cheiro acastanhado da rua e dos cães que despejavam as últimas gotas e das folhas esbofeteadas ligeira e alegremente pela brisa que subia a rua, vinda directamente do outro lado do atlântico, subiu os degraus que o levavam à fechadura tosca e dourada da sua casa. A quatro voltas de chave, sentia-se seguro e feliz. Afinal, era a sua casa, o espaço secreto, sagrado e inviolável onde ninguém poderia penetrar. Recorda-se de ter olhado em volta e pensar que a casa de paredes ainda vazias lhe cheirava a sua casa. Estava cansado. Deitou-se no colchão aconchegante, com lençóis frescos de cama acabada de fazer. Suspirou... porque, apesar de lhe faltar vida, estava feliz. Acordou, na manhã seguinte, e estranhou que o sol gritasse um riso matreiramente escarnecedor. Mal se levantou, percebeu que estava preso. Não sabia quem nem como nem onde nem por que razão o tinham arrastado para essa prisão. Sentiu as paredes ainda brancas de tão vazias a querer espremê-lo e expulsá-lo da sua própria casa, num remoinho centrífugo constante e acelerado. Lutou. Soltou duas lágrimas, uma de cada um dos seus olhos castanho-esverdeados, a tentar lutar contra a raiva e contra o turbilhão branco e contra a prisão em que se encontrava. Não conseguiu. Recorda-se, ainda, de se ter olhado no espelho pela última vez naquela manhã e ter visto, juraria, apagar-se-lhe dos olhos o brilhozinho que sempre o tinha feito sorrir. Recorda-se de pensar que ia morrer. Ou que talvez pudesse matar-se. Mas estava preso. Passaram-se sete anos e sete meses. Era muito tempo, tempo demais até para quem resiste à força sobrevivente de acomodar-se. E recorda-se de pensar que se tinha esquecido de como era viver. Sete anos. E mais sete meses. Esta manhã acordou e não sabe, não se recorda, se será liberdade ou se será prisão. E já não lhe interessa, porque é a sua vida que continua. Não lhe faz diferença. Talvez não saiba sequer viver livre. Terá, talvez, ficado preso a uma vida e a um passado que já não é a sua vida e o seu passado. Mas sabe que é feliz, porque tem as suas memórias... das pessoas que ama. E essas são suas, e essas vivem livres.

Texto para t-shirt desenhada por Júlio Dolbeth. T-shirts à venda aqui!

14/11/2008

Nené Llobregat e o Construtor de Mentiras...

Era uma vez um menino que era como os outros meninos todos. Era pequenino e feliz, e tinha pais carinhosos que gostavam dele, e tinha um irmão mais velho que o massacrava com brincadeiras de menino mais velho, e chorava lágrimas de menino, e tinha um riso e um sorriso de menino feliz, e tinha amigos meninos que o acompanhavam nas corridas de bicicleta, e tinha arranhões de menino pequenino... Era uma vez este menino a quem faltava muito, mas não faltava nada daquilo que era realmente importante. O que, afinal, fazia dele um menino especial, e não um menino como os outros. Embora, na sua vida de menino de aldeia, não soubesse, este menino para quem era uma vez desconhecia a fome e a miséria, a guerra era uma estranha imagem de televisão, todos os meninos tinham pai e mãe, a bicicleta era um objecto garantido como era ter todos os dez dedos das duas mãos e os dez dedos dos dois pés, e a única infelicidade era a bicicleta ser mais nova, ou mais velha, ou ter um pneu furado e não ter todos os livros do mundo que queria ler. E então, era uma vez este menino pequenino que, apesar de não saber, era muito feliz, e que, como os meninos todos, os felizes e os infelizes, tinha sonhos. O nosso menino pequenino cheio de sonhos chamava-se João. João Pedro.

O João Pedro sempre foi um menino diferente; tão diferente dos outros meninos diferentes que tornava o ambiente em volta dele tão feliz como um final de tarde de Primavera. E, por ser tão diferente, o João Pedro não crescia como as pessoas normais; crescia diferente. Por isso, não se limitava a ver as coisas à volta dele e a integrá-las na sua vida; antes pelo contrário: o nosso menino via o que se passava, interrogava com os seus olhos negros de menino o mundo que não conseguia compreender, e acomodava-se; era a sua maneira de querer ser parecido com os meninos normais. E, a cada dia que passava, o João Pedro ia enchendo o peito com mágoas que não partilhava, porque queria ser como os meninos normais, e os meninos normais tinham que se comportar e não se meter nas coisas de adultos. Mas o João Pedro, já sabíamos , não era como os meninos normais; era diferente, mas tão diferente, que fazia de conta que era como os meninos normais. E isso custava-lhe! Oh, se custava! Custava-lhe duas vezes muito. Mas ninguém reparava, porque o João Pedro sabia fingir bem, e parecia um menino como os outros meninos todos; parecia um menino sempre feliz, sem preocupações a pesar-lhe na alma. Excepto quando, como os outros meninos pequeninos, fazia birra de menino.

E assim, sem dar conta, poucos dias depois de fazer ainda a primeira comunhão, com a sua veste branca amarelada de igreja e cheiro a padre e a água benta, e o santinho junto ao coração de batidas nervosas de menino, o João Pedro percebeu que, para ser como os outros meninos, tinha que fazer de conta que não via e que não percebia muitas das coisas que lhe entravam pelo peito dentro sem avisar. E isso ele não conseguia perceber. Só sabia que, por vezes, havia coisas que lhe apertavam o peito e lhe aceleravam o coração, coisas que, depois de se agarrarem às paredes interiores do seu peito, o espicaçavam e o deixavam nervoso.

Mas o tempo passa e “cura tudo”, diz-se. Apesar de tudo, se houvesse uma fotografia do nosso menino para ver, de certeza que iríamos perceber nos seus olhos um brilho diferente dos meninos felizes. Iríamos, talvez, ver mágoas nos seus olhos de menino se tivéssemos uma fotografia sua, de camisa axadrezada em tons de vermelho flanela, os olhos triste-faz de conta e bilhantes de segredos escondidos no sorriso disfarçado dos finos lábios, fechados, apertados para não deixar sair esses segredos; tenho a certeza de que, se tivéssemos essa fotografia, tirada na venha escola, sem estantes de livros amarelados de capas coloridas de cores primárias, com o mapa de Portugal de “Oceano Atlântico” e de “Beira Baixa” por detrás, saberíamos imediatamente que o nosso menino não era um menino normal, feliz e inconsequente como os outros meninos todos. Até o nosso menino o saberia, caso, nessa altura, tivesse visto a fotografia. E viu. E foi assim que o nosso menino percebeu que a única forma de levar a vida e ser adulto normal como os adultos normais era fazer aquilo que já andava a fazer, mas que nem em sonhos lhe tinha ocorrido... e, assim, começou a construir mentiras.

E foi correndo o tempo que cura tudo, durante muitos e muitos anos, que mais anos pareceram porque passavam a passo de caracol, e o João Pedro fazia de conta que muitas das coisas eram para fazer de conta, e, por isso, guardava-as para si. Não falava delas a ninguém, nem a um amigo virtual - porque nessa altura não tínhamos internet, e não havia amigos virtuais, mas apenas amigos reais, que não sabiam guardar segredos, como acontece com os meninos normais como os meninos todos e com os adultos normais como os adultos todos. E assim, a passar longos dias negros e brancas longas noites, o nosso menino foi crescendo, até chegar a adulto. E, de repente, um dia, o nosso menino crescido percebeu que, apesar de fazer de conta que era um menino normal desde pequenino, não aconteceu nada e não se transformou em adulto normal como os outros adultos todos. Teria ficado chateado com o Pai Natal, caso ele lhe tivesse aparecido à frente naquele dia. Ou com o menino Jesus, porque, quando era pequenino, o nosso menino não ouvia falar em Pai Natal. E no dia em que sentiu pela primeira vez que as mãos lhe transpiravam de tanto apertar e que o coração pequenino lhe disparava e que parecia que ia morrer, o João Pedro teria chorado, se as lágrimas não lhe tivessem fugido com o chão; e o nosso menino grande com corpo de adulto como os adultos normais percebeu que a sua vida era a sua sorte e que a sua vida nunca iria mudar. Continuou a brilhar os olhos escuros de tristeza disfarçada e a cerrar os lábios finos de segredos escondidos no peito para ter a certeza de que eles não fugiam, só que tinham passado vários anos e a camisa vermelha axadrezada já não lhe servia.

O nosso menino adulto passou, assim, a ter outras preocupações. Achava que sofria de uma doença grave e estranha, e por, muito tempo, esqueceu que escondia segredos. E esqueceu que costumava construir mentiras para fazer de conta que era um adulto normal como os outros adultos normais. E pela primeira vez o João Pedro perdeu a noção daquilo que era verdade para ele e daquilo que era verdade para os outros, e começou a mentir o seu sentir para ser normal, mas já sem saber o que era mentira e o que era verdade, pois as suas mentiras de disfarce eram mais verdadeiras do que nunca. Sem que se desse conta, saíam-lhe pela boca pequenas mentiras que iam crescendo e que ele via como verdades. E assim nasceu no nosso menino, que apesar de crescido continuava a ser um menino pequenino, o nosso construtor de mentiras.

Muitas das vezes, as mentiras que o nosso menino crescido dizia eram mentiras brancas, mas, se lhe chamassem a atenção e descobrissem que o nosso menino poderia estar a dizer uma mentira, ele sempre mostrava que não era mentira, mas sim a sua verdade. Tão verdade que, até hoje, ninguém lhe conseguiu provar qualquer mentira!

Em tempos, eu conheci o nosso menino João Pedro. Mas há já muitos anos que não o vejo. Às vezes penso nele e quase sinto uma lágrima pequenina a percorrer-me e inundar-me o rosto, porque o João Pedro não era como os outros meninos que mentiam; não era mentiroso, e isso faz toda a diferença. Não, o João Pedro era o construtor de mentiras.

Às vezes, tenho saudades do nosso menino. Apetece-me pedalar, pedalar muito, muito depressa, na minha bicicleta contra o tempo, e ir ter com o João Pedro. Tenho a certeza que, se pedalasse, iria encontrá-lo a fazer de conta que estava feliz, na desilusão de quem vai a Copenhaga para ver a Sereia que, por momentos, lá não está. Mas iria encontrá-lo e iria abraçá-lo e iria dizer-lhe que estava tudo bem. Porque a camisa de vermelho flanela já não lhe serve, mas o João Pedro continua a ser o nosso menino. Eu iria. A sério que iria. Mas tenho o pneu da bicicleta furado...

Se eu fosse perfeito...

Se eu fosse perfeito, o mundo seria só teu, para fazeres dele aquilo que quisesses; mandarias nas estradas que percorro, cantarias as ondas, partilharias o teu sorriso de menina com o olhar incrédulo de uma criança... e o sol, em vez de te magoar, seria teu, recolher-se-ia no teu olhar, brincaria contigo, dar-te-ia a mão em momentos de lassidão.

Se eu fosse perfeito, dar-te-ia a felicidade num olhar, prenderia a insegurança à perna de uma mesa, limparia as tuas lágrimas de alegria com o esboço dos meus sonhos...

Não sendo perfeito, não me é permitido gritar de felicidade, beijar-te em todos os momentos de solidão, agarrar-te a mão sempre que te sentes só e agastada. Não sendo perfeito, não me é permitido morder inocentemente os teus dedos de ingenuidade ou beijar-te na face em todos os momentos de saudade ou correr até ti em cada um dos teus suspiros.

E em toda a minha imperfeição posso apenas dar-te todo o meu amor, beijar-te sempre que estou contigo, sentir chover lágrimas de felicidade e ter-te aqui.

Por um dia, por uma noite...

Hoje o pesadelo foi sonhado. O sonho disse-me que te tive. Por um dia. O pesadelo disse-me que nunca te tive. E que te perdi. E no meu pesadelo sonhado, sonhei que te tive, que me amaste, que nunca te tive, que te perdi. E no meu sonho sonhado, tive-te perto, e abraçaste-me junto ao teu corpo, e quase me beijaste e senti-te afagar-me de perto o meu coração pequenino. E no meu pesadelo sonhado, só me amaste por um dia. Ou por uma noite. No dia seguinte, cheio de sol, de repente desabou toda a chuva do mundo. Já não me amavas. Foi por um dia. Ou por uma noite. E deixaste de me amar. E depois veio a tristeza. O pesadelo sonhado ficou. O sonho sonhado esqueceu-se de sobreviver, escondeu-se de tímido no seu esconderijo quadrado fechado a oito chaves. Cada dia passa, mas o meu coração continua a bater por ti. Ora de paixão. Ora de apaixonada raiva. Ora em batidas pequeninas de tristeza. Ora de alegria por saber que, pelo menos por um dia, ou por uma noite, o sonho foi sonhado.

O porta-chaves...

O porta-chaves continua a ser usado. Continua a ter a pata de coelho, mas já quase sem pelo. O apito do joão continua preso desde o dia em que, ao passear com a avó, caiu na represa. No porta-chaves da avó continuam todas as treze chaves, excepto a do jazigo do avô, que a maria retirou quando a avó foi ter com ele. Uma é quadrada e vermelha, a outra redonda, amarelecida pelo tempo, duas são pequenas, dos dois mealheiros da avó; as outras são as chaves do aparador, da cómoda, da porta da entrada, da sala, e as outras, pura e simplesmente, perderam o uso com o tempo...

A fotografia

um pedaço de papel, rectangular, aí de uns 10 x 15... uma fotografia a preto e branco, ainda com o cheio a mofo da caixa de sapatos branca amarelecida da avó... a última recordação que ela tinha do filho: uma velha fotografia de um homem de uniforme, o filho perdido na guerra, num qualquer ultramar, nem se sabe muito bem qual. O preto e branco foge ja ao sépia. Os rebordos, ondulados, amarelos, outrora brancos, têm ainda as dedadas de lágrimas da avó, fossilizadas na poeira dos tempos. O canto superior direito tem, ainda, os vincos da dobra que a prima fez quando tinha ainda três anos quando fugiu para o quintal com a Bíblia da avó. O filho da avó, esse, continuava a tentar explicar com o olhar o seu desaparecimento. Enigmático, sonhador, procura só a paz. Mas naquele aparador com cheiro a bolas de naftalina usada só conseguiu assistir a muitas guerras.