Era uma vez um menino que era como os outros meninos todos. Era pequenino e feliz, e tinha pais carinhosos que gostavam dele, e tinha um irmão mais velho que o massacrava com brincadeiras de menino mais velho, e chorava lágrimas de menino, e tinha um riso e um sorriso de menino feliz, e tinha amigos meninos que o acompanhavam nas corridas de bicicleta, e tinha arranhões de menino pequenino... Era uma vez este menino a quem faltava muito, mas não faltava nada daquilo que era realmente importante. O que, afinal, fazia dele um menino especial, e não um menino como os outros. Embora, na sua vida de menino de aldeia, não soubesse, este menino para quem era uma vez desconhecia a fome e a miséria, a guerra era uma estranha imagem de televisão, todos os meninos tinham pai e mãe, a bicicleta era um objecto garantido como era ter todos os dez dedos das duas mãos e os dez dedos dos dois pés, e a única infelicidade era a bicicleta ser mais nova, ou mais velha, ou ter um pneu furado e não ter todos os livros do mundo que queria ler. E então, era uma vez este menino pequenino que, apesar de não saber, era muito feliz, e que, como os meninos todos, os felizes e os infelizes, tinha sonhos. O nosso menino pequenino cheio de sonhos chamava-se João. João Pedro.
O João Pedro sempre foi um menino diferente; tão diferente dos outros meninos diferentes que tornava o ambiente em volta dele tão feliz como um final de tarde de Primavera. E, por ser tão diferente, o João Pedro não crescia como as pessoas normais; crescia diferente. Por isso, não se limitava a ver as coisas à volta dele e a integrá-las na sua vida; antes pelo contrário: o nosso menino via o que se passava, interrogava com os seus olhos negros de menino o mundo que não conseguia compreender, e acomodava-se; era a sua maneira de querer ser parecido com os meninos normais. E, a cada dia que passava, o João Pedro ia enchendo o peito com mágoas que não partilhava, porque queria ser como os meninos normais, e os meninos normais tinham que se comportar e não se meter nas coisas de adultos. Mas o João Pedro, já sabíamos , não era como os meninos normais; era diferente, mas tão diferente, que fazia de conta que era como os meninos normais. E isso custava-lhe! Oh, se custava! Custava-lhe duas vezes muito. Mas ninguém reparava, porque o João Pedro sabia fingir bem, e parecia um menino como os outros meninos todos; parecia um menino sempre feliz, sem preocupações a pesar-lhe na alma. Excepto quando, como os outros meninos pequeninos, fazia birra de menino.
E assim, sem dar conta, poucos dias depois de fazer ainda a primeira comunhão, com a sua veste branca amarelada de igreja e cheiro a padre e a água benta, e o santinho junto ao coração de batidas nervosas de menino, o João Pedro percebeu que, para ser como os outros meninos, tinha que fazer de conta que não via e que não percebia muitas das coisas que lhe entravam pelo peito dentro sem avisar. E isso ele não conseguia perceber. Só sabia que, por vezes, havia coisas que lhe apertavam o peito e lhe aceleravam o coração, coisas que, depois de se agarrarem às paredes interiores do seu peito, o espicaçavam e o deixavam nervoso.
Mas o tempo passa e “cura tudo”, diz-se. Apesar de tudo, se houvesse uma fotografia do nosso menino para ver, de certeza que iríamos perceber nos seus olhos um brilho diferente dos meninos felizes. Iríamos, talvez, ver mágoas nos seus olhos de menino se tivéssemos uma fotografia sua, de camisa axadrezada em tons de vermelho flanela, os olhos triste-faz de conta e bilhantes de segredos escondidos no sorriso disfarçado dos finos lábios, fechados, apertados para não deixar sair esses segredos; tenho a certeza de que, se tivéssemos essa fotografia, tirada na venha escola, sem estantes de livros amarelados de capas coloridas de cores primárias, com o mapa de Portugal de “Oceano Atlântico” e de “Beira Baixa” por detrás, saberíamos imediatamente que o nosso menino não era um menino normal, feliz e inconsequente como os outros meninos todos. Até o nosso menino o saberia, caso, nessa altura, tivesse visto a fotografia. E viu. E foi assim que o nosso menino percebeu que a única forma de levar a vida e ser adulto normal como os adultos normais era fazer aquilo que já andava a fazer, mas que nem em sonhos lhe tinha ocorrido... e, assim, começou a construir mentiras.
E foi correndo o tempo que cura tudo, durante muitos e muitos anos, que mais anos pareceram porque passavam a passo de caracol, e o João Pedro fazia de conta que muitas das coisas eram para fazer de conta, e, por isso, guardava-as para si. Não falava delas a ninguém, nem a um amigo virtual - porque nessa altura não tínhamos internet, e não havia amigos virtuais, mas apenas amigos reais, que não sabiam guardar segredos, como acontece com os meninos normais como os meninos todos e com os adultos normais como os adultos todos. E assim, a passar longos dias negros e brancas longas noites, o nosso menino foi crescendo, até chegar a adulto. E, de repente, um dia, o nosso menino crescido percebeu que, apesar de fazer de conta que era um menino normal desde pequenino, não aconteceu nada e não se transformou em adulto normal como os outros adultos todos. Teria ficado chateado com o Pai Natal, caso ele lhe tivesse aparecido à frente naquele dia. Ou com o menino Jesus, porque, quando era pequenino, o nosso menino não ouvia falar em Pai Natal. E no dia em que sentiu pela primeira vez que as mãos lhe transpiravam de tanto apertar e que o coração pequenino lhe disparava e que parecia que ia morrer, o João Pedro teria chorado, se as lágrimas não lhe tivessem fugido com o chão; e o nosso menino grande com corpo de adulto como os adultos normais percebeu que a sua vida era a sua sorte e que a sua vida nunca iria mudar. Continuou a brilhar os olhos escuros de tristeza disfarçada e a cerrar os lábios finos de segredos escondidos no peito para ter a certeza de que eles não fugiam, só que tinham passado vários anos e a camisa vermelha axadrezada já não lhe servia.
O nosso menino adulto passou, assim, a ter outras preocupações. Achava que sofria de uma doença grave e estranha, e por, muito tempo, esqueceu que escondia segredos. E esqueceu que costumava construir mentiras para fazer de conta que era um adulto normal como os outros adultos normais. E pela primeira vez o João Pedro perdeu a noção daquilo que era verdade para ele e daquilo que era verdade para os outros, e começou a mentir o seu sentir para ser normal, mas já sem saber o que era mentira e o que era verdade, pois as suas mentiras de disfarce eram mais verdadeiras do que nunca. Sem que se desse conta, saíam-lhe pela boca pequenas mentiras que iam crescendo e que ele via como verdades. E assim nasceu no nosso menino, que apesar de crescido continuava a ser um menino pequenino, o nosso construtor de mentiras.
Muitas das vezes, as mentiras que o nosso menino crescido dizia eram mentiras brancas, mas, se lhe chamassem a atenção e descobrissem que o nosso menino poderia estar a dizer uma mentira, ele sempre mostrava que não era mentira, mas sim a sua verdade. Tão verdade que, até hoje, ninguém lhe conseguiu provar qualquer mentira!
Em tempos, eu conheci o nosso menino João Pedro. Mas há já muitos anos que não o vejo. Às vezes penso nele e quase sinto uma lágrima pequenina a percorrer-me e inundar-me o rosto, porque o João Pedro não era como os outros meninos que mentiam; não era mentiroso, e isso faz toda a diferença. Não, o João Pedro era o construtor de mentiras.
Às vezes, tenho saudades do nosso menino. Apetece-me pedalar, pedalar muito, muito depressa, na minha bicicleta contra o tempo, e ir ter com o João Pedro. Tenho a certeza que, se pedalasse, iria encontrá-lo a fazer de conta que estava feliz, na desilusão de quem vai a Copenhaga para ver a Sereia que, por momentos, lá não está. Mas iria encontrá-lo e iria abraçá-lo e iria dizer-lhe que estava tudo bem. Porque a camisa de vermelho flanela já não lhe serve, mas o João Pedro continua a ser o nosso menino. Eu iria. A sério que iria. Mas tenho o pneu da bicicleta furado...