14/03/2009

Se não estava, haveria de estar...

Lembro-me como se fosse ontem do vulto que era como o teu em frente àquela janela do outro lado da rua. Poderia não me lembrar, porque já passou algum tempo, muito tempo, tempo de mais até para todos os iogurtes de todas as prateleiras de todos os supermercados de todo o mundo que entretanto se estragaram... todos. Mas lembro-te que era o teu vulto e não qualquer outro porque era teu. Era um vulto pálido, sereno, olhar distante no horizonte de navios, cruzeiros e cargueiros que, entretanto, haveriam de partir. Estava triste. E eu, ignorando a tristeza do teu vulto, sabia, lá no fundo sabia, apesar de não te conhecer, que haveria de ter culpas no cartório da tristeza do vulto que era teu. Estava escrito em todas as linhas! E, se não estava, haveria de estar.
Nesse final de tarde vi rolar-te pela face válida de vulto triste uma quente lágrima, salgada e solitária. Soube que estavas triste. Soube que a culpa era minha. Ou, se não era, haveria de ser - porque, nessa altura, os nossos caminhas ainda haveriam de se cruzar...

13/03/2009

Barcos e ilusões

Naquela altura eu era forte, e era uma espécie de porto seguro. E tu pegavas no teu barco de papel arrancado à força do caderno de capa ao xadrez e partias à descoberta... E durante dias mergulhavas nas novas aventuras e sentias-te entusiasmado e animado e eras feliz durante uns dias. Quando a descoberta te desiludia, ou quando já não tinha nada de novo que pudesses descobrir, voltavas a atracar no teu porto seguro... Até nova aventura e novos entusiasmos e novas descobertas... Até que um dia atracaste num porto que achavas ser o teu; mas afinal não era, e o teu porto tinha partido para outros barcos...