Era um dia quente e longo de final de Primavera. Mas apesar de ser um daqueles dias quentes e longos que só o final de Primavera sabe desenhar, tinha acabado de sentir um fino fio de frio percorrer-lhe a espinha dorsal, primeiro, e, depois, o corpo todo, da planta dos pés até ao lugar mais recôndito da sua eriçada nuca. Percebeu, nesse momento que era feliz. Fazia precisamente sete anos e sete meses - Deus, como o tempo passa! - que estava preso. Olhava para trás e não conseguia perceber ainda como tinha acontecido. Sabia que tinha sido numa extraordinariamente bonita noite de Outono, daquelas de cheiro a lápis acabado de afiar a rasgar o papel ainda fresco ao abrir da resma. Sabia que tinha sido na rua fresca, à porta de casa, debaixo dos ramos de folhas quase secas das árvores ainda novas. Sabia que, como todas as noites de todos os dias de todas as estações, havia pessoas, vizinhos, a passear os aflitos e nervosos cães de bexigas ainda a escorrer das últimas gotas. Sabia que tinha que haver um motivo, uma razão, mas não sabia qual. Talvez tivessem sido os seus sonhos de felicidade partilhada com todas as pessoas belas de quem gostava. Ou talvez fosse a sua personalidade forte, marcada, a desejar igualdade na utopia de todos sermos iguais num mundo onde ele próprio, ou sobretudo ele próprio, era diferente. Ou talvez fosse, apenas e só, a sua fé, a sua vontade de crer e acreditar amar a ser amado num mundo que não lhe pertence. E talvez fosse tudo isso ou apenas a vontade que tinha de abraçar, naquela noite à sombra das folhas daquelas árvores, um vulto proibido, que não lhe pertencia. Na realidade, não percebia como tinha acontecido. Naquela noite, depois de se despedir do cheiro acastanhado da rua e dos cães que despejavam as últimas gotas e das folhas esbofeteadas ligeira e alegremente pela brisa que subia a rua, vinda directamente do outro lado do atlântico, subiu os degraus que o levavam à fechadura tosca e dourada da sua casa. A quatro voltas de chave, sentia-se seguro e feliz. Afinal, era a sua casa, o espaço secreto, sagrado e inviolável onde ninguém poderia penetrar. Recorda-se de ter olhado em volta e pensar que a casa de paredes ainda vazias lhe cheirava a sua casa. Estava cansado. Deitou-se no colchão aconchegante, com lençóis frescos de cama acabada de fazer. Suspirou... porque, apesar de lhe faltar vida, estava feliz. Acordou, na manhã seguinte, e estranhou que o sol gritasse um riso matreiramente escarnecedor. Mal se levantou, percebeu que estava preso. Não sabia quem nem como nem onde nem por que razão o tinham arrastado para essa prisão. Sentiu as paredes ainda brancas de tão vazias a querer espremê-lo e expulsá-lo da sua própria casa, num remoinho centrífugo constante e acelerado. Lutou. Soltou duas lágrimas, uma de cada um dos seus olhos castanho-esverdeados, a tentar lutar contra a raiva e contra o turbilhão branco e contra a prisão em que se encontrava. Não conseguiu. Recorda-se, ainda, de se ter olhado no espelho pela última vez naquela manhã e ter visto, juraria, apagar-se-lhe dos olhos o brilhozinho que sempre o tinha feito sorrir. Recorda-se de pensar que ia morrer. Ou que talvez pudesse matar-se. Mas estava preso. Passaram-se sete anos e sete meses. Era muito tempo, tempo demais até para quem resiste à força sobrevivente de acomodar-se. E recorda-se de pensar que se tinha esquecido de como era viver. Sete anos. E mais sete meses. Esta manhã acordou e não sabe, não se recorda, se será liberdade ou se será prisão. E já não lhe interessa, porque é a sua vida que continua. Não lhe faz diferença. Talvez não saiba sequer viver livre. Terá, talvez, ficado preso a uma vida e a um passado que já não é a sua vida e o seu passado. Mas sabe que é feliz, porque tem as suas memórias... das pessoas que ama. E essas são suas, e essas vivem livres.
24/11/2008
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2 comentários:
Uma T-Shirt bonita parece que merece um texto bonito. Parabéns para os autores.
:) Gostei, sim senhor. :)
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